Pobreza multidimensional no Brasil a partir do Censo Demográfico 2022
Adriana Stankiewicz Serra
Centro de Estudos em Economia Aplicada, Agrícola e do Meio Ambiente (CEA/IE/Unicamp) e Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)
Resumo Executivo
A mensuração da pobreza no Brasil permanece fortemente ancorada na renda, mas os resultados do subprojeto mostram que medidas monetárias e não monetárias identificam situações parcialmente distintas. Como os microdados da amostra do Censo 2022 não haviam sido divulgados até o encerramento do relatório, a etapa empírica utilizou a PNAD Contínua 2022, que permite desagregação por 146 estratos geográficos e estabelece parâmetros para futura comparação com o Censo.
O IPM proposto, baseado no método Alkire-Foster, considera educação, habitação e saneamento básico e complementa a medida de renda. Com corte de 33,33%, 7,7% da população foi identificada como multidimensionalmente pobre, com intensidade média de 47,7%. A incidência foi de 38,4% no rural e 2,9% no urbano; o saneamento básico teve a maior contribuição para o IPM rural.
A complementaridade entre as medidas aparece com nitidez: 27,9% estavam abaixo da linha monetária adotada, definida pelo rendimento domiciliar per capita mensal de até meio salário mínimo por pessoa, conforme o critério de acesso ao Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal, mas apenas 4,7% eram simultaneamente pobres nas duas abordagens. Os resultados também revelam fortes contrastes territoriais e sociais, mostrando que a renda, isoladamente, não descreve a distribuição das condições de vida e reforçando a necessidade de diagnósticos que combinem dimensões monetárias e não monetárias.
Atualizado em: 1º de outubro de 2026. Status: pesquisa finalizada.
Questão Norteadora
"Em que medida a mensuração da pobreza multidimensional, a partir dos microdados do Censo Demográfico, permite identificar padrões territoriais e sociais de privação que não são captados pela renda e aprimorar a priorização de políticas públicas?"
Principais achados
Pobreza monetária e pobreza multidimensional se sobrepõem apenas parcialmente: 27,9% da população estava abaixo da linha monetária adotada (rendimento domiciliar per capita mensal de até meio salário mínimo por pessoa, conforme o critério de acesso ao Cadastro Único), 7,7% era multidimensionalmente pobre e apenas 4,7% acumulava as duas situações.
A desigualdade urbano-rural é acentuada e robusta: a incidência de pobreza multidimensional foi de 38,4% no rural e 2,9% no urbano; o saneamento básico foi a dimensão que mais contribuiu para o IPM rural.
A pobreza multidimensional varia fortemente entre territórios e grupos sociais. Norte (18,8%) e Nordeste (16,7%) registraram incidências muito superiores às do Sudeste e Sul (2,3%); entre pretos e pardos, a taxa foi de 10,7%, ante 3,7% entre brancos.
Nos 146 estratos geográficos analisados, a incidência de pobreza multidimensional variou de 0,1% em Campinas (SP) a 52,3% no Vale do Rio Juruá e Rio Negro (AM), evidenciando contrastes territoriais que as médias nacionais não revelam.
Usos e Desdobramentos
Formulação de políticas públicas
Recomendações para gestores públicos
Texto para Discussão
Debate e implicações públicas
Dados e visualizações
Indicadores e dados em formato visual
Documentos da Pesquisa
Artigo Conceitual
Artigo conceitual desenvolvido com base na proposta.
Em breveRelatório Final
Relatório final consolidando os achados da pesquisa.
Em breveO que este subprojeto permite compreender sobre o Brasil agora
O subprojeto mostra que pobreza de renda e pobreza multidimensional descrevem dimensões relacionadas, mas não equivalentes da pobreza brasileira. Em 2022, 27,9% da população estava abaixo da linha de renda adotada e 7,7% era multidimensionalmente pobre; apenas 4,7% reunia as duas condições. Isso significa que insuficiência monetária e acúmulo de privações se cruzam, mas não identificam exatamente as mesmas pessoas. Há inclusive uma parcela da população que não está abaixo da linha de renda, mas acumula privações suficientes em educação, habitação e saneamento básico para ser identificada como multidimensionalmente pobre.
Essa diferença muda a forma de enxergar a pobreza. A renda informa sobre os recursos monetários disponíveis; a abordagem multidimensional observa condições de vida efetivamente experimentadas. Melhorar a renda não implica, necessariamente e no mesmo ritmo, superar carências de escolarização, moradia ou saneamento. Por isso, uma medida não substitui a outra. Quando analisadas em conjunto, elas revelam situações que permaneceriam parcialmente ocultas se o diagnóstico dependesse de um único indicador.
O território torna essas diferenças ainda mais visíveis. A incidência de pobreza multidimensional é muito maior na população rural do que na urbana, e os resultados variam fortemente entre regiões e entre os 146 estratos geográficos analisados. Os mapas mostram que médias nacionais ou estaduais podem esconder contrastes importantes entre capitais, interiores e diferentes áreas de um mesmo estado. A pobreza não varia apenas em intensidade: a combinação das privações também muda conforme o lugar onde as pessoas vivem.
O Brasil que emerge dessa leitura é desigual tanto na distribuição da renda quanto no acesso às condições básicas de vida. O principal ganho da mensuração multidimensional está em tornar essa diferença observável: identificar onde insuficiência monetária e outras privações coincidem, onde se afastam e que grupos e territórios aparecem de maneira distinta conforme a medida utilizada. É nesse espaço entre renda e condições concretas de vida que o diagnóstico da pobreza ganha precisão.