Texto para Discussão
O crescimento brasileiro diante do limite da força de trabalho
Demografia, emprego e produtividade nas possibilidades de expansão da economia
Demografia, emprego e produtividade nas possibilidades de expansão da economia
O Brasil se aproxima de uma mudança relevante nas condições de crescimento. A população em idade de trabalhar avança em ritmo muito baixo, enquanto a produtividade permanece insuficiente para reduzir de forma significativa a necessidade de novas ocupações. Nos últimos anos, a queda do desemprego permitiu acomodar parte dessa diferença, mas essa margem se estreitou. Este texto examina como a desaceleração da força de trabalho, o baixo avanço da produtividade e a vizinhança do pleno emprego passam a condicionar as possibilidades de expansão da economia brasileira.
A oferta desacelera
A população de 14 a 64 anos, faixa que concentra cerca de 97% das pessoas ocupadas, cresce aproximadamente 0,23% ao ano. Segundo as projeções utilizadas na pesquisa, esse contingente atingirá seu ponto máximo em 2035 e começará a diminuir a partir de 2036. A mudança é gradual, mas seus efeitos já aparecem: a economia dispõe de uma base demográfica cada vez menos capaz de sustentar aumentos elevados e contínuos da ocupação.
População em idade de trabalhar e força de trabalho não são equivalentes. A força de trabalho depende também da taxa de participação, isto é, da proporção de pessoas que trabalha ou procura trabalho. Entre 2012 e 2025, o aumento da participação dentro de diferentes grupos etários compensou parte do efeito do envelhecimento. Ainda assim, a mudança da composição etária reduziu a taxa agregada. Sem o avanço das taxas específicas, cerca de 2,6 milhões de pessoas deixariam de integrar a força de trabalho em 2025.
A restrição começa antes da queda absoluta da população de 14 a 64 anos. O problema já está na desaceleração. À medida que aumenta o peso dos grupos com menor participação, são necessários ganhos cada vez maiores dentro de cada faixa etária apenas para evitar a redução da oferta agregada.
Crescer exige emprego
A relação entre produto, emprego e produtividade ajuda a explicar por que a mudança demográfica se torna um problema econômico. Para uma dada taxa de crescimento do PIB, quanto menor o avanço da produtividade, maior a expansão do emprego necessária. A produtividade brasileira avançou pouco nos últimos anos, mantendo elevada a resposta da ocupação ao crescimento da atividade.
A pesquisa estima elasticidade-PIB do emprego próxima de 0,84 entre 2012 e 2025. Em um cenário no qual o PIB cresce 3% e a produtividade aumenta 0,5%, o emprego precisa avançar aproximadamente 2,49% ao ano. Esse ritmo é muito superior à expansão projetada da força de trabalho.
A geração de empregos continua sendo desejável por seus efeitos sobre renda e inserção laboral. O problema está em sustentar por vários anos uma expansão da ocupação muito acima da entrada líquida de trabalhadores. Enquanto há desemprego elevado, essa diferença pode ser absorvida. Quando a desocupação cai, a continuidade do mesmo padrão exige aumento da participação, imigração, mais horas trabalhadas ou ganhos de produtividade.
O desemprego caiu
Nos anos recentes, a queda do desemprego foi o principal mecanismo de acomodação entre demanda e oferta de trabalho. O emprego cresceu mais rapidamente do que a força de trabalho, e a diferença foi suprida pela incorporação de pessoas que estavam desocupadas.
A taxa de desemprego dessazonalizada chegou a aproximadamente 5,4% em dezembro de 2025, o menor nível da série da PNAD Contínua. O relatório trata esse patamar como parte da vizinhança do pleno emprego. A expressão reconhece que não existe uma taxa única capaz de definir com exatidão quando a reserva de trabalhadores foi plenamente utilizada. Há diferenças regionais, setoriais e ocupacionais, além de pessoas disponíveis que não aparecem na taxa convencional de desemprego.
O dado relevante é a redução da margem que vinha permitindo ao emprego crescer acima da força de trabalho. A queda do desemprego representa melhora concreta do mercado e, ao mesmo tempo, diminui o contingente disponível para novas contratações. Simulações que mantêm PIB de 3%, produtividade baixa e participação estável produzem trajetórias pouco plausíveis para a desocupação. Isso indica que algum dos parâmetros terá de mudar.
Os parâmetros atuais
Mantidas as relações recentes entre produtividade, participação, jornada e desemprego, a pesquisa estima crescimento compatível próximo de 1,3% ao ano. O valor não é previsão, meta ou teto permanente. Trata-se do resultado de uma simulação que pergunta qual ritmo de expansão poderia ser sustentado sem exigir aumento do emprego incompatível com a oferta disponível.
A estimativa permite dimensionar um problema que poderia parecer distante. A população de 14 a 64 anos só começará a cair depois de 2035, mas sua expansão já é insuficiente para acompanhar um padrão de crescimento intensivo em emprego. A restrição não surge no momento da retração demográfica; ela aparece quando a oferta deixa de crescer no ritmo exigido pela demanda.
Taxas superiores a 1,3% continuam possíveis. Para sustentá-las por vários anos, será necessário alterar algum componente: ampliar a participação, reduzir ainda mais o desemprego compatível com pleno emprego, aumentar a jornada, receber mais imigrantes ou elevar a produtividade. O relatório examina essas margens e conclui que as alternativas do lado da oferta têm alcance limitado.
As margens de oferta
A participação feminina foi uma fonte importante de expansão da força de trabalho ao longo das últimas décadas. Ela subiu intensamente até 2010 e se manteve próxima da estabilidade depois disso. Ainda há barreiras à inserção e à permanência no mercado, mas não é plausível supor a repetição automática dos ganhos observados no passado. A participação de pessoas mais velhas também pode crescer, embora o envelhecimento continue reduzindo a taxa agregada ao aumentar o peso das idades com menor presença laboral.
Melhorias na compatibilização entre vagas e trabalhadores, na mobilidade regional e na qualificação podem reduzir desajustes. Seu efeito principal é utilizar melhor a oferta existente. O relatório simula uma redução relevante da taxa de desemprego compatível com pleno emprego e conclui que o ganho adiaria a restrição por aproximadamente um ano em um cenário de PIB crescendo 3%.
A imigração poderia ampliar diretamente a oferta, mas sua escala atual é pequena, próxima de 55 mil trabalhadores potenciais por ano, cerca de 0,05% da força de trabalho. As horas trabalhadas formam outra margem possível, porém a tendência histórica aponta redução da jornada média. Cada alternativa oferece alguma contribuição; nenhuma possui, nas condições examinadas, escala suficiente para sustentar sozinha uma trajetória de crescimento próxima de 3%.
Essas margens não devem ser descartadas. Elas podem melhorar o funcionamento do mercado, reduzir desajustes e oferecer tempo. Sua utilidade não altera o resultado central: a ampliação da oferta atenua a restrição, mas não modifica de forma duradoura a relação entre crescimento do PIB e necessidade de emprego.
A produtividade separa os cenários
O desempenho recente da produtividade é baixo. O pequeno ganho agregado observado não resultou de avanços disseminados dentro dos setores. A decomposição realizada pela pesquisa mostra que a melhora veio da mudança da composição setorial do emprego, enquanto a contribuição intrassetorial foi ligeiramente negativa. Em termos agregados, a produtividade aumentou porque o peso relativo das atividades mudou, e não porque os setores passaram, em conjunto, a produzir mais por trabalhador.
Esse resultado importa porque a realocação setorial tem limites. O emprego não pode se deslocar indefinidamente entre atividades para compensar a ausência de ganhos internos. Uma trajetória mais alta de crescimento exige avanços de produtividade dentro dos setores que concentram trabalhadores e produto.
O cenário alternativo do relatório ilustra a diferença. Com produtividade crescendo 3% ao ano, força de trabalho seguindo a trajetória projetada e desemprego próximo de 5,4%, o PIB poderia avançar em torno de 3,8%. O exercício não constitui previsão nem programa de política. Ele mede o efeito de uma mudança expressiva em um parâmetro que permaneceu muito fraco no período recente.
Elevar a produtividade depende de processos acumulativos: investimento, infraestrutura, qualificação, incorporação tecnológica, financiamento e organização produtiva. O relatório não estima o efeito de cada instrumento nem identifica uma combinação capaz de produzir crescimento de 3% ao ano da produtividade. Sua contribuição é mostrar que essa variável separa trajetórias muito diferentes e que o desempenho recente ainda não fornece base para uma inflexão automática.
Fechamento
A desaceleração da força de trabalho já afeta as possibilidades de crescimento, embora a população de 14 a 64 anos ainda não tenha começado a diminuir. A queda do desemprego acomodou parte do descompasso entre emprego e oferta, e as alternativas de participação, mobilidade, imigração e jornada oferecem contribuições limitadas.
Mantidos os parâmetros recentes, o crescimento compatível fica próximo de 1,3% ao ano. Uma trajetória superior depende de ganhos de produtividade que ainda não aparecem de forma disseminada dentro dos setores. O impasse identificado pela pesquisa está nessa distância entre a necessidade de produzir mais com o trabalho disponível e a baixa capacidade recente de fazê-lo.
Fonte e elaboração
Pesquisa de referência: Francisco Eduardo Pires de Souza. Conteúdo elaborado pela mediação editorial do Projeto Censo 2022 a partir dos documentos de pesquisa disponibilizados, registros de reuniões e workshops, e da leitura de conjuntura que orienta sua arquitetura editorial. Versão de 27 de junho de 2026, sujeita a atualizações durante a vigência da pesquisa.