Formulação de Políticas Públicas
Demografia, produtividade e crescimento econômico: implicações para a ação pública
Síntese
A população de 14 a 64 anos cresce cerca de 0,23% ao ano, atingirá seu ponto máximo em 2035 e começará a diminuir a partir de 2036. Ao mesmo tempo, o baixo crescimento da produtividade mantém elevada a necessidade de expansão do emprego para cada ponto adicional de PIB. Nos anos recentes, a queda do desemprego absorveu parte da diferença entre demanda e oferta de trabalho, mas essa margem tornou-se estreita. Mantidos os parâmetros atuais de produtividade, participação e jornada, a pesquisa estima crescimento compatível de aproximadamente 1,3% ao ano. Esse resultado é condicionado às premissas do exercício e não constitui previsão. A ação pública precisa incorporar demografia e produtividade ao planejamento econômico e distinguir medidas de alívio de mudanças estruturais.
Contexto e diagnóstico
Durante décadas, a expansão da população em idade de trabalhar permitiu que o crescimento econômico se apoiasse na incorporação contínua de trabalhadores. Essa base perde força. Com PIB crescendo 3% e produtividade de 0,5%, a pesquisa estima que o emprego precisaria aumentar aproximadamente 2,49% ao ano, ritmo muito superior à expansão da oferta de trabalho. A queda do desemprego conciliou temporariamente essas trajetórias e levou o mercado à vizinhança do pleno emprego. A continuidade da expansão não pode depender indefinidamente da absorção de trabalhadores desempregados. As alternativas pelo lado da oferta — maior participação, melhor compatibilização entre vagas e trabalhadores, mobilidade, imigração e mudanças nas horas trabalhadas — podem oferecer alívio, mas têm alcance limitado. A produtividade concentra a principal resposta estrutural porque reduz a necessidade de expansão do emprego para cada ponto adicional de PIB.
Evidências e implicações
A pesquisa estima elasticidade-PIB do emprego próxima de 0,84 para o período da PNAD Contínua e utiliza 0,83 no cenário com PIB crescendo 3% e produtividade de 0,5%. A população de 14 a 64 anos deixará de crescer em 2035, enquanto o envelhecimento reduz a taxa agregada de participação ao ampliar o peso dos grupos com menor inserção laboral. A participação feminina se aproxima da estabilidade, a imigração tem escala insuficiente para produzir efeito macroeconômico relevante e a jornada média apresenta tendência de queda. A decomposição da produtividade mostra que o pequeno ganho agregado recente decorreu da mudança da composição setorial do emprego, enquanto o componente intrassetorial foi negativo. Para a política pública, isso significa que medidas voltadas à oferta podem adiar a restrição, mas taxas mais altas de crescimento dependem de ganhos persistentes de produtividade e de estratégias diferenciadas por setor, região e perfil de participação laboral.
Recomendações para Gestores Públicos
- 1
Integrar a demografia ao planejamento
Incorporar projeções da população em idade de trabalhar, crescimento da força de trabalho, taxa de participação, desemprego, horas trabalhadas e produtividade às metas de crescimento, emprego e investimento.
- 2
Priorizar ganhos de produtividade
Avaliar políticas de educação, qualificação, investimento, infraestrutura, regulação e difusão tecnológica segundo sua contribuição esperada e mensurável para a produtividade, com metas, indicadores e monitoramento de resultados.
- 3
Usar medidas de oferta como complemento
Direcionar políticas de participação, treinamento, intermediação, mobilidade e imigração para reduzir desajustes e ampliar margens de curto prazo, sem tratá-las como solução estrutural.
- 4
Diferenciar estratégias por setor
Identificar setores com produtividade crescente, setores estagnados e atividades em que a mudança da composição do emprego explica o resultado agregado, evitando políticas uniformes para estruturas produtivas distintas.
- 5
Monitorar a restrição de trabalho
Acompanhar regularmente a evolução da força de trabalho, da participação, do desemprego, das horas trabalhadas, da produtividade agregada e setorial e da composição do emprego, distinguindo oscilações conjunturais de tendências estruturais.
Fechamento
A desaceleração da força de trabalho reduz a margem de crescimento baseada na expansão contínua do emprego. Medidas de participação, mobilidade, intermediação e imigração podem aliviar parte da restrição, mas não alteram seu núcleo. O planejamento econômico precisa avaliar estratégias de crescimento pela compatibilidade entre expansão do produto, disponibilidade de trabalhadores e evolução da produtividade.
Fonte e elaboração
Pesquisa de referência: Francisco Eduardo Pires de Souza. Conteúdo elaborado pela mediação editorial do Projeto Censo 2022 a partir dos materiais de pesquisa disponibilizados, registros de reuniões e workshops. As formulações apresentadas indicam implicações institucionais e possibilidades de uso público compatíveis com os achados do subprojeto, sem substituir processos de decisão, desenho ou implementação de políticas públicas. Versão de 27 de junho de 2026, sujeita a atualizações durante a vigência da pesquisa.