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Territórios e Vulnerabilidades

Texto para Discussão

Vulnerabilidade climática e capacidades de adaptação

Limites da mensuração e uso das estatísticas públicas na identificação de populações vulneráveis

A vulnerabilidade climática tornou-se uma categoria central da adaptação, mas ainda enfrenta limites importantes de definição, mensuração e operacionalização territorial. Este Texto para Discussão examina como diferentes formas de compreender a vulnerabilidade produzem diagnósticos distintos sobre quem deve ser protegido, em quais territórios e com quais instrumentos públicos. A partir da contribuição de Estela Neves, o texto mostra que o Censo Demográfico 2022 e outras estatísticas públicas oferecem bases indispensáveis para identificar populações vulneráveis, mas não medem vulnerabilidade diretamente. Seu uso exige critérios conceituais explícitos, combinação de fontes, atenção às escalas territoriais e reconhecimento dos limites das variáveis disponíveis.

A vulnerabilidade climática como problema operacional

A adaptação climática no Brasil entrou em uma fase em que a definição de vulnerabilidade deixou de ser apenas questão conceitual e passou a produzir efeitos diretos sobre a formulação de políticas públicas. Com o avanço do Plano Clima e a necessidade de elaboração de planos subnacionais de adaptação, estados e municípios passam a enfrentar uma pergunta central: como identificar, quantificar e caracterizar populações vulneráveis à mudança climática de forma territorializada e operacionalizável?

Essa questão não se resolve apenas pela existência de dados. O país dispõe de estatísticas públicas, bases geoespaciais, plataformas climáticas e sistemas de informação relacionados a riscos, desastres, território e condições de vida. O problema está na ausência de referências metodológicas suficientemente consolidadas para transformar esse conjunto disperso de informações em diagnósticos comparáveis e utilizáveis na formulação de políticas públicas. Sem critérios explícitos, a vulnerabilidade climática tende a se tornar categoria ampla demais para orientar prioridades territoriais e decisões de adaptação.

Diferentes definições, diferentes diagnósticos

O ponto de partida deste subprojeto é a constatação de que a vulnerabilidade humana ao clima não possui definição única nem método consagrado de mensuração. A literatura acadêmica e institucional trabalha com diferentes abordagens: vulnerabilidade social ou sistêmica, vulnerabilidade relacionada a ameaças climáticas específicas, designação de grupos vulnerabilizados e interpretações centradas em exposição, sensibilidade e capacidade adaptativa. Cada uma dessas abordagens produz diferentes formas de identificar quem deve ser protegido, em quais territórios e por meio de quais instrumentos públicos.

Essa pluralidade não representa necessariamente um problema. A vulnerabilidade climática é fenômeno multidimensional, territorial e historicamente condicionado, atravessado por desigualdades sociais, infraestrutura, acesso a serviços, capacidade institucional e exposição diferenciada a ameaças climáticas. O problema surge quando diferentes definições passam a operar sem mediação metodológica explícita. Nesse cenário, indicadores podem medir dimensões distintas sob o mesmo nome, diagnósticos tornam-se pouco comparáveis e políticas de adaptação perdem precisão territorial.

A lacuna metodológica da adaptação climática

O Plano Clima Adaptação reforça a centralidade da vulnerabilidade ao tratar a adaptação como processo que exige avaliação integrada de riscos, impactos e vulnerabilidades. Também reconhece a necessidade de considerar populações, territórios e sistemas de forma articulada. Entretanto, a passagem entre diretriz institucional e operacionalização territorial permanece marcada por importantes lacunas metodológicas.

A pesquisa identifica que a expansão da agenda de adaptação climática não foi acompanhada pela consolidação de metodologias amplamente compartilhadas para identificação e quantificação da vulnerabilidade humana ao clima. Persistem diferenças relevantes entre indicadores, critérios de mensuração e procedimentos de análise, especialmente em escalas subnacionais. A vulnerabilidade aparece como categoria central da política climática, mas ainda sem instrumentos suficientemente estabilizados para orientar diagnósticos territorializados comparáveis.

O papel das estatísticas públicas

É nesse contexto que o Censo Demográfico 2022 assume papel estratégico. Por sua cobertura nacional, desagregação territorial e capacidade de caracterizar condições sociodemográficas e domiciliares, o Censo oferece base relevante para análises territorializadas da vulnerabilidade climática. No entanto, ele não mede vulnerabilidade diretamente. Suas variáveis funcionam como aproximações possíveis de determinadas dimensões do fenômeno e precisam ser articuladas a outras fontes estatísticas, registros administrativos, bases ambientais e informações geoespaciais.

O subprojeto propõe enfrentar esse desafio por meio da construção de um inventário de bases, pesquisas e variáveis capazes de subsidiar a identificação e a quantificação de populações vulneráveis. O objetivo não é produzir um índice definitivo, mas avaliar quais informações públicas podem contribuir para leituras territorializadas da vulnerabilidade, considerando qualidade dos dados, escala espacial, cobertura temporal e aderência conceitual.

Aproximações metodológicas e escalas territoriais

Essa operação exige distinguir vulnerabilidades estruturais e vulnerabilidades associadas a ameaças específicas. A primeira dimensão envolve condições como pobreza, desigualdade, saneamento, moradia, infraestrutura e capacidade de resposta institucional. A segunda depende da relação entre populações e ameaças climáticas concretas, como secas, enchentes, deslizamentos, calor extremo, incêndios ou elevação do nível do mar. A vulnerabilidade climática emerge justamente da combinação entre essas dimensões.

Por isso, a pesquisa trabalha com a ideia de aproximações metodológicas. A identificação de populações vulneráveis não deve ser entendida como procedimento único e definitivo, mas como processo analítico composto por diferentes camadas de interpretação territorial. Algumas dimensões podem ser parcialmente quantificadas por estatísticas públicas; outras exigem validação local, leitura qualitativa e análise contextual das relações entre população, território e ameaça climática.

Instrumentos para adaptação climática

Essa perspectiva possui implicações diretas para governos subnacionais. A elaboração de planos de adaptação exigirá diagnósticos minimamente consistentes, mas muitos estados e municípios não dispõem de equipes especializadas em modelagem estatística ou análise climática avançada. Nesse contexto, metodologias acessíveis, transparentes e baseadas em estatísticas públicas podem contribuir para reduzir a distância entre diretrizes nacionais e capacidade local de implementação.

O inventário proposto pelo subprojeto opera nessa direção. Ao mapear bases como Censo Demográfico, PNAD Contínua, CNEFE, INDE, registros sobre áreas de risco, saneamento, desastres, favelas, territórios indígenas, comunidades quilombolas e uso da terra, a pesquisa busca identificar quais informações já existem e como podem ser mobilizadas para análises de vulnerabilidade climática em diferentes escalas territoriais.

Considerações finais

A contribuição do subprojeto está menos em oferecer respostas definitivas e mais em delimitar as condições necessárias para produzi-las com rigor analítico e coerência metodológica. A pesquisa demonstra que a adaptação climática depende da capacidade de transformar conceitos abstratos em critérios territorializados de leitura pública e planejamento.

O Censo 2022 e as demais estatísticas oficiais oferecem base indispensável para esse avanço, mas sua utilização depende da capacidade de selecionar variáveis, reconhecer limites, combinar métodos e explicitar critérios de análise. O subprojeto de Estela Neves se situa exatamente nesse ponto: entre a complexidade conceitual da vulnerabilidade climática e a necessidade prática de construir diagnósticos territorializados capazes de subsidiar políticas de adaptação em diferentes escalas do território brasileiro.

Fonte e elaboração

Conteúdo elaborado pela mediação editorial do Projeto Censo 2022 a partir dos documentos de pesquisa disponibilizados, registros de reuniões e workshops, e da leitura de conjuntura que orienta sua arquitetura editorial. Versão de 27 de junho de 2026, sujeita a atualizações durante a vigência da pesquisa.