Texto para Discussão
O que o Brasil consegue ver — e o que ainda deixa fora — quando tenta compreender a migração como marcador social da diferença?
Entre estatísticas públicas e Cinedemografia, o texto mostra por que compreender a migração exige medir fluxos, reconhecer lacunas e observar experiências que não cabem integralmente nos dados.
Este texto discute a contribuição analítica do subprojeto de Paula Almeida para compreender a migração no Brasil contemporâneo. A pesquisa parte de uma tensão produtiva: o Censo Demográfico e os registros administrativos são indispensáveis para medir fluxos, origens, destinos e parte das condições materiais de vida dos migrantes, mas não captam integralmente barreiras, discriminações, vínculos, afetos e pertencimentos. Ao articular estatísticas públicas e Cinedemografia, o subprojeto propõe dois retratos complementares da migração: um retrato estatístico e um retrato cinematográfico.
Migrar é mais do que mudar de lugar
A migração costuma ser tratada como deslocamento populacional. Na demografia, ela compõe, ao lado de nascimentos e óbitos, a dinâmica que explica o tamanho, a distribuição e o perfil da população. Nas políticas públicas, aparece muitas vezes associada ao mercado de trabalho, à documentação, ao acesso a serviços ou à capacidade de acolhimento dos territórios.
A pesquisa desloca essa leitura. Migrar não é apenas sair de um lugar e chegar a outro. A condição migrante pode interferir nas oportunidades, nas relações sociais e no reconhecimento dos indivíduos nos lugares de destino. Por isso, o subprojeto trata a migração como marcador social da diferença.
Essa formulação permite observar que a migração se combina a outros marcadores, como gênero, raça/cor, nacionalidade, deficiência, classe social, religião, local de origem e status migratório. O efeito dessas combinações não aparece plenamente quando o migrante é visto apenas como fluxo, trabalhador ou usuário potencial de serviços.
O retrato estatístico: indispensável, mas parcial
O Censo Demográfico é peça central para estudar migração no Brasil. Ele permite observar migração interna, imigração internacional, retorno e distribuição territorial, além de possibilitar cruzamentos com variáveis de população, domicílio, educação, trabalho e rendimento. Para a migração interna, sua importância é ainda maior, porque há poucas fontes regulares capazes de acompanhar deslocamentos dentro do país.
A pesquisa mostra, porém, que o Censo não pode carregar sozinho toda a capacidade pública de compreender a migração. Sua periodicidade é decenal, o bloco de migração está no questionário da amostra e algumas perguntas mudaram entre os censos. No caso do Censo 2022, a ausência dos microdados durante a pesquisa impediu a análise interseccional originalmente prevista.
Essa limitação não é apenas operacional. Ela revela que a produção de inteligência pública depende não só da coleta de dados, mas também da disseminação oportuna das informações. Sem microdados ou tabulações adequadas, perguntas relevantes sobre raça/cor, escolaridade, rendimento, ocupação, moradia e desigualdades combinadas permanecem abertas.
Muitas fontes, nenhuma visão completa
O relatório final sistematiza diferentes fontes de dados sobre migração: registros administrativos, bases de trabalho formal, autorizações de residência, registros migratórios, solicitações de refúgio, CadÚnico, bases educacionais, Arquivo Nacional, PNAD e Censo Demográfico. Essa cartografia é uma das contribuições mais importantes da pesquisa.
O ponto central não é apenas mostrar que existem muitas bases. É mostrar que cada uma delas vê uma parte do fenômeno. Bases de trabalho formal não captam trabalhadores informais. Registros migratórios não captam todos os migrantes em situação irregular. O CadÚnico informa sobre famílias inscritas no cadastro, não sobre todos os migrantes. Bases educacionais mostram estudantes matriculados, não quem está fora da escola.
A consequência é clara: nenhuma fonte isolada permite compreender plenamente a condição migrante. O conhecimento público sobre migração exige uma ecologia de fontes, capaz de combinar o que cada base mostra com a consciência do que cada uma deixa fora.
A migração interna como zona de menor visibilidade
A pesquisa identifica uma assimetria importante. A imigração internacional e o refúgio contam com várias bases administrativas, ainda que seletivas. A migração interna, por outro lado, depende muito mais do Censo Demográfico.
A antiga PNAD oferecia informações periódicas sobre migração até 2015. Com a PNAD Contínua, essa possibilidade foi reduzida, pois não foram mantidas perguntas que permitam identificar se o trabalhador é migrante. Isso torna mais difícil acompanhar deslocamentos internos no intervalo entre os censos.
Essa lacuna importa porque a migração interna afeta diretamente o planejamento territorial, o mercado de trabalho, a demanda por serviços públicos, as redes familiares, as dinâmicas urbanas e as desigualdades regionais. Sem fontes regulares, mudanças importantes podem ser percebidas tarde demais ou com menor precisão.
O retrato cinematográfico: a Cinedemografia
A contribuição mais singular do subprojeto está na Cinedemografia. A proposta é usar a análise fílmica como fonte qualitativa complementar aos métodos demográficos tradicionais. O cinema não substitui o Censo, os registros administrativos ou as pesquisas domiciliares. Ele ilumina outro plano da migração.
Filmes brasileiros que abordam movimentos migratórios ou apresentam migrantes e refugiados como personagens permitem observar dimensões dificilmente captadas em tabelas: saudade, separação familiar, deslocamento por trabalho, barreiras de adaptação, preconceito, moradia precária, vínculos afetivos, refúgio, pertencimento e reconstrução de vida.
Essa abordagem não transforma filmes em evidência estatística. Seu valor está em tornar narrável aquilo que os dados medem apenas parcialmente ou não medem. A Cinedemografia personifica números sem abandonar o rigor das estatísticas públicas.
Conhecer melhor para integrar melhor
A principal implicação do subprojeto é que políticas de acolhimento e integração dependem da capacidade pública de conhecer a migração. Não basta saber quantas pessoas chegaram ou de onde vieram. É preciso entender onde estão, quais serviços acessam, que barreiras enfrentam, que grupos ficam fora das bases disponíveis e que dimensões da experiência migrante permanecem invisíveis.
Isso não significa transformar a pesquisa em um plano fechado de política migratória. Sua contribuição é anterior: mostrar que a produção, integração e disseminação de informações são condições para políticas mais ajustadas às condições reais dos migrantes e refugiados.
Nesse sentido, o subprojeto reposiciona a produção de dados como parte da agenda pública de cidadania. Quando migrantes não aparecem de modo suficiente nas estatísticas, sua integração também se torna mais difícil de planejar, acompanhar e defender.
Fechamento
A força do subprojeto está em articular dois retratos sem confundi-los. O retrato estatístico é indispensável para medir deslocamentos, origens, destinos e parte das condições materiais de vida. O retrato cinematográfico ajuda a observar experiências, barreiras e pertencimentos que os dados não registram diretamente.
Medir a migração é indispensável; compreendê-la exige também reconhecer aquilo que os números ainda não conseguem contar.
Fonte e elaboração
Conteúdo elaborado pela mediação editorial do Projeto Censo 2022 a partir dos documentos de pesquisa disponibilizados, registros de reuniões e workshops, e da leitura de conjuntura que orienta sua arquitetura editorial. Versão de 27 de junho de 2026, sujeita a atualizações durante a vigência da pesquisa.