Texto para Discussão
Crescimento sem convergência territorial
Como estrutura produtiva, capital humano e transbordamentos seletivos moldam a renda municipal no Brasil
A desigualdade espacial de renda no Brasil se forma na combinação entre estrutura produtiva, mercados de trabalho, qualificação, complexidade econômica e relações de vizinhança. A pesquisa de Georges Flexor e Bianca Louzada Xavier Vasconcellos investiga por que a modernização produtiva recente não se converteu em convergência territorial. O argumento central é que o crescimento se distribui conforme a composição setorial, o capital humano, a complexidade e os transbordamentos de cada território. Em alguns contextos, esses fatores irradiam oportunidades; em outros, concentram renda, talentos e recursos em poucos polos.
A escala muda o problema
As médias nacionais tornam a desigualdade visível, mas alisam sua forma espacial. Elas indicam distância entre regiões, setores ou grupos de municípios, sem mostrar como a renda se agrupa, como vizinhanças econômicas se formam e como vantagens produtivas se reforçam no território. Quando a unidade de análise passa a ser o município, a desigualdade deixa de aparecer como contraste fixo entre blocos regionais e passa a revelar padrões de dependência, proximidade e acumulação.
A renda municipal depende de atributos internos e do entorno: mercados de trabalho regionais, cadeias produtivas, fluxos de trabalhadores, acesso a serviços especializados, infraestrutura e circulação de conhecimento. Municípios de maior rendimento tendem a se localizar próximos a outros municípios dinâmicos; municípios de menor rendimento aparecem com frequência em vizinhanças de baixa densidade produtiva.
Essa escala altera a própria pergunta sobre desigualdade. O ponto decisivo deixa de ser a localização dos municípios ricos e pobres. A questão passa a ser como certos territórios acumulam capacidade de gerar renda, enquanto outros permanecem presos a atividades pouco diversificadas, baixa qualificação, dependência da administração pública e transbordamentos frágeis.
O município é unidade decisiva de observação, mas não esgota a explicação. A desigualdade se forma entre municípios, em redes de vizinhança, fluxos de trabalho e cadeias produtivas que atravessam fronteiras administrativas. O território não é cenário da renda; é parte do mecanismo que a produz.
Clubes persistentes
A pesquisa identifica clubes de convergência na geografia da renda brasileira. Um deles reúne municípios do Norte e do Nordeste, marcados por menores rendimentos, menor complexidade econômica e baixa densidade de capital humano. Outro articula Sul, Sudeste e Centro-Oeste, com renda mais elevada, estrutura produtiva mais diversificada e maior presença de trabalhadores com ensino superior.
Esses clubes expressam causalidade cumulativa. Territórios com maior densidade produtiva atraem mais capital, trabalho qualificado, serviços sofisticados e infraestrutura. Territórios frágeis enfrentam dificuldade para romper trajetórias de baixa complexidade, dependência fiscal e menor capacidade de absorver ganhos externos.
A clivagem regional permanece estruturante, sem encerrar a análise. Há municípios pobres em regiões ricas e municípios dinâmicos em regiões historicamente periféricas. A desigualdade se desdobra ao longo da distribuição dos rendimentos: os mesmos fatores podem operar com força distinta nos municípios de baixa, média ou alta renda.
A geografia brasileira se organiza por grandes regiões, posição econômica, vizinhança produtiva e capacidade local de capturar ou irradiar ganhos. Os clubes persistem porque a renda municipal se ancora em estruturas que se reforçam no espaço.
Estrutura produtiva
Um dos achados mais fortes da pesquisa é a predominância da composição setorial sobre a produtividade isolada na formação dos rendimentos municipais. O que importa é a estrutura produtiva que organiza a economia local: que ocupações mobiliza, quais encadeamentos cria, que demanda gera para trabalho qualificado e quanto valor consegue reter no território.
A agropecuária moderna aparece como vetor relevante de renda em determinados espaços, especialmente quando articulada a tecnologia, logística, insumos, processamento e serviços especializados. Esse resultado desloca leituras antigas que associavam automaticamente o setor primário ao atraso econômico. Em parte do território, o agronegócio tecnificado tornou-se componente central da renda municipal.
Essa força não garante difusão homogênea. A expansão agropecuária pode elevar rendimentos e gerar efeitos no entorno, ao mesmo tempo que convive com baixa diversificação local, reduzida absorção de trabalho qualificado e concentração de ganhos. O setor primário contemporâneo combina dinamismo e seletividade.
Indústria e serviços exigem a mesma leitura segmentada. A indústria sustenta emprego formal, encadeamentos e produtividade quando conectada a redes regionais densas. Os serviços abrigam atividades sofisticadas de tecnologia, finanças, logística e informação, ao lado de serviços tradicionais de baixa remuneração. A expansão terciária, sozinha, não assegura convergência.
Difusão e polarização
A distinção entre capital humano e complexidade econômica é o mecanismo mais decisivo do estudo. Ambos elevam rendimentos, com lógicas espaciais distintas. O capital humano tende a irradiar benefícios: trabalhadores qualificados circulam, instituições de ensino atendem mercados regionais e capacidades formadas em um município podem beneficiar localidades vizinhas.
A complexidade econômica tem comportamento mais concentrador. Municípios que reúnem firmas densas, ocupações sofisticadas, tecnologia, gestão e serviços especializados elevam seus próprios rendimentos, enquanto atraem talentos, investimentos e oportunidades das áreas próximas. A complexidade aumenta a renda onde se instala; sem integração regional, pode reforçar drenagem no entorno.
Essa diferença altera a leitura da modernização. Formar trabalhadores em territórios frágeis sem criar bases produtivas capazes de absorvê-los pode alimentar migração de talentos. Criar polos complexos sem redes de conexão pode aprofundar a concentração. O desenvolvimento territorial depende da combinação entre qualificação, absorção produtiva, mobilidade, infraestrutura e encadeamentos intermunicipais.
Os transbordamentos espaciais são seletivos. Capital humano e certos encadeamentos produtivos podem beneficiar vizinhos. Serviços sofisticados, produtividade industrial e complexidade podem concentrar recursos. A desigualdade espacial se reproduz nesse movimento desigual entre difusão e polarização.
Efeitos mudam de lugar
Os determinantes dos rendimentos não operam da mesma forma em todos os lugares nem ao longo de toda a distribuição de renda. Um mesmo setor pode reduzir desigualdades em determinado contexto e ampliá-las em outro. O efeito médio de uma variável, embora útil, pode esconder resultados opostos entre municípios pobres e ricos.
Esse achado impede transformar evidências setoriais em receita nacional. Incentivos à agropecuária, à indústria ou aos serviços encontram bases produtivas diferentes, mercados de trabalho diferentes e capacidades institucionais diferentes. Uma política que favorece municípios de menor renda em uma região pode beneficiar municípios já ricos em outra. O território filtra o efeito dos estímulos econômicos.
A heterogeneidade distribucional dá densidade ao argumento. A desigualdade brasileira resulta de diferenças entre regiões e de mecanismos que mudam conforme região, vizinhança, estrutura produtiva e estrato de rendimento. O país não responde de forma uniforme aos mesmos motores de crescimento.
A pergunta relevante deixa de ser se determinado fator eleva a renda municipal. Passa a ser onde ele eleva, para quais municípios, sob quais condições produtivas e com que efeito sobre o entorno. O problema não está somente na ausência de dinamismo, mas na forma desigual como o dinamismo se territorializa.
O que a evidência torna visível
A pesquisa desloca o debate público para uma pergunta mais precisa: que mecanismos permitem transformar crescimento localizado em difusão territorial de renda, trabalho qualificado e capacidades produtivas? A resposta não está em uma variável única. Está na combinação entre estrutura produtiva, capital humano, complexidade, vizinhança e capacidade de absorção regional.
Quando os rendimentos municipais dependem de transbordamentos, a escala municipal isolada fica analiticamente curta. O município continua sendo a unidade em que a renda é observada, mas parte dos fatores que a explicam está fora dele. Mercado de trabalho, cadeias produtivas, formação de trabalhadores, serviços especializados e circulação de conhecimento operam em redes territoriais mais amplas.
Essa constatação altera a legibilidade institucional da desigualdade. Não basta perguntar quais setores crescem, quais municípios recebem investimentos ou quais regiões apresentam renda média maior. É preciso observar se o crescimento cria vínculos com o entorno, absorve trabalho qualificado, diversifica a economia local, reduz dependência de atividades pouco complexas e evita que polos dinâmicos drenem recursos de sua vizinhança.
O ganho analítico da pesquisa está em tornar visível a mecânica espacial da renda. Onde há difusão, interessa compreender seus canais. Onde há polarização, interessa identificar o que a sustenta. Onde há modernização produtiva sem convergência, interessa saber por que os ganhos não atravessam o território. Antes de estimular crescimento, é preciso compreender como o crescimento se distribui.
Fechamento
A pesquisa mostra que a desigualdade espacial de renda no Brasil é produzida por uma combinação de heranças regionais e mecanismos contemporâneos. A modernização produtiva deslocou a geografia econômica, fortaleceu setores e elevou rendimentos em determinados espaços, sem gerar convergência territorial ampla. Capital humano, complexidade, composição setorial e transbordamentos espaciais definem quem se beneficia do crescimento e quem permanece à margem de seus efeitos mais duradouros.
A pergunta decisiva deixa de ser onde o país cresce. Passa a ser quais territórios conseguem transformar crescimento em renda, trabalho qualificado, encadeamentos produtivos e oportunidades distribuídas. Sem essa passagem, o Brasil seguirá convivendo com crescimento localizado, melhora parcial de indicadores e persistência de desigualdades espaciais que se reorganizam sem desaparecer.
Fonte e elaboração
Pesquisa de referência: Georges Flexor, Bianca Louzada Xavier Vasconcellos (UNESP). Conteúdo elaborado pela mediação editorial do Projeto Censo 2022 a partir dos documentos de pesquisa disponibilizados, registros de reuniões e workshops, e da leitura de conjuntura que orienta sua arquitetura editorial. Versão de 27 de junho de 2026, sujeita a atualizações durante a vigência da pesquisa.